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Com quantas peças se faz um telecentro
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Como montar e sustentar um telecentro? Se ele não for objeto de uma política pública, mantido por recursos estatais, o melhor é que surja amparado por uma ampla articulação de agentes sociais. É o que dizem todos os especialistas ouvidos por ARede. A chamada sustentabilidade econômica dos projetos, ou seja, o modelo criado para pagar suas despesas, está diretamente relacionada à sua sustentabilidade social, conceito que traduz o grau de inserção do telecentro nas comunidades onde está localizado.

Por isso, muita gente acredita que tem mais chances de sobreviver um telecentro aberto por entidades que já façam trabalhos sociais consistentes. Tradição comunitária, conselho gestor diversificado e representativo, documentação e atividades que reflitam os interesses locais – em síntese, são os principais elementos de sustentabilidade social, que podem promover maiores condições para captação de recursos, sejam eles financeiros, humanos ou na forma de conhecimentos, objetos, insumos, capacidade de articulação. Esses pré-requisitos contribuem, ainda, para que a administração do espaço promova atividades afinadas com as necessidades do seu público, e desenvolva formas de coletar dados novos sobre a comunidade.

Esse combinado de ingredientes, apontado pela maioria dos profissionais, permite que o telecentro – lugar para acesso gratuito à internet e mobilização comunitária – sirva de ferramenta para o fortalecimento de programas voltados ao desenvolvimento local, ao mesmo tempo em que esse incremento na ação coletiva contribui para sustentar o telecentro. Situação ideal que buscam muitas entidades, prefeituras e instituições da sociedade civil pelo Brasil afora.

“Para montar um telecentro, o ideal é buscar entidades que já tenham atividades bem desenvolvidas, nas áreas de educação, rádio, comunicação comunitária, ou outras que representem a sua sustentabilidade social garantida. São entidades que identificaram necessidades junto às suas comunidades e estão em vias de implantar projetos, inclusive de geração de renda, que podem, efetivamente, se beneficiar da existência de um telecentro”, avalia Beatriz Tibiriçá, a Beá, que esteve na coordenação dos telecentros da cidade de São Paulo, na gestão do PT, e agora atua na ONG Coletivo Digital.

Para Marie Anne Macadar, professora da UnicenP, de Curitiba, que defendeu a tese de doutorado “Inclusão Digital no Brasil: o Processo de Gestão de Telecentros”, na Universidade de São Paulo (USP), é muito difícil um telecentro se sustentar sem uma entidade ativa. “Não só porque é caro, mas também por uma questão de cultura. Sem esse apoio, não há como explicar à comunidade como um telecentro pode ajudar as pessoas, o que ele é. Ou seja, torna-se difícil fazer a mobilização para usar o acesso à internet num universo em que esse acesso ainda não existe”, avalia.

Ela cita como caso de sucesso a Vila Pinto, em Porto Alegre, conhecida pelo pioneirismo na reciclagem de lixo, onde a comunidade solicitou à prefeitura um telecentro; ou as experiências associadas a rádios comunitárias. “Essa união costuma dar muito certo”, afirma. Entre outras razões, por assegurar um canal de divulgação para o projeto. “Deve-se buscar ações com a mídia local – rádios comunitárias ou de poste, fanzines, descobrir serviços que possam ser oferecidos. Isso é básico para moblizar recursos”, destaca Beá.

Rádios-telecentros já estão sendo montados pela Cemina-Comunicação, Educação e Informação em Gênero. De acordo com Silvana Lemos, coordenadora do projeto na ONG, é fundamental contar com uma liderança local, capaz de fazer a interlocução com a comunidade e buscar novos apoiadores – no caso da Cemina, as radialistas chamadas cyberelas. “Quanto mais híbrido for o telecentro e o conselho gestor, com vários parceiros, melhor. Os telecentros da Cemina são Estações Digital do Banco do Brasil, apoiados pelo Ministério do Planejamento, com conexões do Gesac e recursos da Fundação Kellog. Uma rede de parceiros é vital, porque a manutenção de um telecentro é cara e difícil”, adverte.

Conselho gestor
Debater a importância do conselho gestor na comunidade ajuda a referendar a iniciativa em outros setores da sociedade – prefeituras, sindicatos, associações, igrejas. “Trazê-los para o conselho amplia a divulgação do trabalho, estimula a troca de serviços, fortalece a sustentabilidade sociocultural. Do contrário, vira "o negócio do sindicato", "o negócio do pessoal do rádio", e perde a representatividade. O conselho deve participar da resolução de problemas, fiscalizar e criticar”, explica Silvana. No Paraná, Márcia Shüller, diretora de desenvolvimento da Celepar, companhia de processamento de dados do estado, diz que todos os telecentros têm conselhos gestores formados por pessoas da comunidade e dos apoiadores, em igual número.

Com eleições, em geral anuais ou bienais, outra função do conselho gestor é estabelecer as regras (ou a ausência delas) e delegar responsabilidades. Nesse sentido, Beá recomenda que o responsável pelo projeto mantenha um diálogo permanente, para saber o que a comunidade quer. Isso vale para discutir os horários e as prioridades no uso das máquinas – para navegação livre ou para cursos –, as penalidades para o desrespeito às normas, as políticas para sites de chat ou jogos, a programação de atividade dos telecentros, os temas das oficinas. “Tudo isso a comunidade tem que decidir ou delegar a integrantes do conselho”, afirma.

Na maioria das vezes, há uma programação básica, de iniciação à informática, a que se somam, de acordo com as características locais, oficinas de artesanato, comunicação comunitária, manutenção de micros, criação de sites, html, inserção no mercado de trabalho, como fazer currículo, entre outras. Ou ações de educação ambiental e pesquisas sobre a região, como aconteceu no telecentro de Perus, em São Paulo. “Levantar os problemas e documentar a cultura local, usando a rede, mobiliza as pessoas em torno do que elas precisam. Especialmente em lugares onde a presença pública, às vezes, é nenhuma”, diz Beá. Esse envolvimento faz com que o telecentro sirva para a organização de cooperativas ou de outras formas de gerar renda, associado a arranjos produtivos.

Anotar e registrar tudo o que acontece no telecentro permite replicar a experiência e usar os dados como ferramenta adicional para captação de recursos. Ou seja, ter o perfil socioeconômico dos freqüentadores, o registro das atividades desenvolvidas, que tipo de coisas os usuários preferem fazer na máquina. “Por exemplo, para mostrar às empresas interessadas que queiram apoiar o projeto a quem o telecentro atende, se ele tem vocação cultural, os benefícios que está produzindo”, destaca Beá. A documentação serve, ainda, para identificar os erros e para orientar a oferta de cursos.

Cobrar ou não cobrar?
Para controlar as despesas e avaliar a real viabilidade de abrir um telecentro, deve-se montar uma planilha de custos. O coordenador de inclusão digital do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), Edgard Piccino, estima R$ 150 mil para montar e manter um telecentro por um ano (conta que não se aplica a todos os projetos). Segundo ele, o investimento se distribui, normalmente, em 30% para as aquisições (micros, mobiliários, rede, etc.) e 70% para custeio (capacitação, recursos humanos, luz, telefone, conexão, água). Esse valor considera o uso de máquinas novas, um bom servidor, salário de R$ 570,00 para três monitores.

Não é pouco. Razão por que, embora a proposta inclusão digital pressuponha acesso gratuito à web, muitas entidades cobram por outros serviços para garantir a sua sobrevivência. É o caso, entre outros, do Comitê para a Democratização da Informática (CDI). “O princípio da gratuidade é bacana, porque, ao cobrar, você exclui quem não pode pagar. Mas tem a questão da sustentabilidade da instituição, que, às vezes, não tem dinheiro nem para pagar a conta de luz, apesar de apresentar um grande potencial de mobilização”, afirma Raquel Quintino, coordenadora de projetos da ONG.

Por isso, diz ela, as Escolas de Informática e Cidadania (EICs) da entidade cobram mensalidade de até R$ 15,00 em troca de cursos de informática básica. “Quem paga tem direito de freqüentar as aulas”. Raquel acredita também que, com a gratuidade, nem sempre o usuário se sente responsável pelo espaço. “O pagamento gera co-responsabilidade”, argumenta, embora admita que, mesmo assim, a mensalidade pode gerar inadimplência e evasão. “Pode não resolver a sustentabilidade, mas não escamoteia o problema”, justifica.

A equação não é simples. De um lado, está a política pública, com todos os serviços de graça. De outro, o limite é a lan house ou o cibercafé e o birô de impressão, em que tudo é pago. “Entre um e outro extremo, há um espectro imenso de possibilidades – cobrar a impressão, pelo uso, cobrar uma mensalidade dos associados. Mas nem todas podem ser chamadas de inclusão digital. Se for cobrar R$ 10,00 o acesso, numa região com renda média de dois salários mínimos, isso não é inclusão digital”, avalia Ricardo Kobashi, coordenador técnico do programa estadual Acessa São Paulo.

Modos de faturar
Em Porto Alegre, a prefeitura permite às entidades gestoras dos telecentros a cobrança da impressão – de R$ 0,25 a R$ 0,50 por página. Francisco Blanco, coordenador de inclusão digital e acesso à tecnologia da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Segurança Urbana, calcula em R$ 1,38 mil por mês os gastos fixos mínimos de cada unidade (R$ 1 mil com dois monitores, e R$ 300,00 pela conexão, sem contar manutenção e suprimentos). Na Ilha do Mel (PR), conta Beá, o telecentro dá acesso gratuito para os moradores, e cobra do turista. E a sua equipe passou a desenvolver sites para as pousadas locais, de forma remunerada.

Em Nazaré da Mata (PE), Silvana, da Cemina, lembra que o pessoal da rádio-telecentro está dando um curso de informática para funcionários do Tribunal de Justiça. E ganhando por isso. Em Pintadas (BA), o prefeito assumiu o salário da cyberela; e uma cooperativa rural, o do monitor, de cerca de R$ 300,00. Já em Campestre (AL), ao contrário, diz ela, a prefeitura usa toda a estrutura do telecentro e não contribui com nada. “Uma das dificuldades, comum à maioria dos brasileiros, é valorizar nossos serviços”, acredita. Na entidade, um dos itens mais detalhados da capacitação envolve a elaboração de planos de negócios. Atualmente, cada rádio-telecentro tem receita mensal média de R$ 650,00, para despesas de R$ 1 mil. Sem incluir o pagamento dos monitores, que, durante seis meses, fica a cargo da Fundação Banco do Brasil. Silvana recomenda, ainda, que se reserve, por mês, R$ 200,00 para suprimentos e cerca de R$ 50,00 para manutenção. “Mas, se quebrar um disco rígido, lá se vão mais R$ 300,00”. Para ajudar a sustentar seus 13 rádio-telecentros em operação, a ONG está lançando a campanha “Adote uma Cyberela”, para recolher doações.

Recursos públicos
Entidades, sindicatos, rádios comunitárias, prefeituras ou outros interessados em abrir telecentros devem tentar, sempre que possível, recursos de programas oficiais – as redes dos governos estaduais (o Paraná, por meio da Celepar, está aberto a discutir caso a caso com prefeituras e entidades do estado), o Gesac, do Ministério das Comunicações (para a conexão à internet), a Secretaria da Pesca (em comunidades de pescadores), o Banco do Brasil (que mantém uma ampla rede no país), as unidades Casa Brasil, para compartilhar recursos com esses centros mais estruturados (saiba mais).

“Nunca vi uma experiência montada exclusivamente com recursos internos da comunidade”, diz Luiz Antônio Carvalho, consultor da Rede de Informações para o Terceiro Setor (Rits). Na sua opinião, “é improvável que uma iniciativa em área carente, sem o poder público, vá para frente. Porque há demandas permanentes por infra-estrutura e tecnologia”.

Em Porto Alegre, os 24 telecentros que haviam sido fechados na mudança de governo foram reabertos e o programa ganhou um orçamento de R$ 560 mil, até julho de 2006. Os recursos vêm da Secretaria Nacional de Segurança Pública, vinculada ao Ministério da Justiça, porque o projeto foi qualificado como uma ação de prevenção à violência, explica Blanco.

Na opinião de Rodrigo Assumpção, coordenador de inclusão digital da Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação, do Ministério do Planejamento, “o mais importante é saber como ter projetos de desenvolvimento local, uma questão que deve estar na fase do planejamento. Telecentro que só fica trabalhando com curso de informática não serve para nada”.
051013 - edição de 13 de outubro de 2005 - A Rede ( www.arede.inf.br )

Toda atenção ao monitor
O investimento mais importante de um telecentro é em recursos humanos. Bons monitores/educadores são disputados, porque se sabe que, com eles, vêm – e ficam – a razão de ser dos telecentros: seus usuários. É preciso escolher pessoas com perfil adequado para dar apoio a eles. E, também, imprescindível que sejam do próprio local, para incentivar a apropriação do espaço e assegurar as pessoas de que serão atendidas por alguém que conhece suas dificuldades e expectativas.

O trabalho tem dois aspectos importantes. Um é o do educador/monitor – responsável pela orientação dos freqüentadores, pela administração das informações sobre o telecentro, e pela mobilização da comunidade para realizar outras atividades. O outro é o de coordenador, ou articulador, que cuida do fortalecimento institucional do espaço, por meio da busca de parcerias para sustentá-lo, e para fazer com que seja ferramenta de outras iniciativas comunitárias. O salário de um educador/monitor varia de R$ 300,00 (em Pintadas, Bahia), a R$ 570,00, na Casa Brasil. Há entidades que não têm esses recursos, e necessitam de voluntários. Mas a rotatividade dessas pessoas é grande e isso pode prejudicar a manutenção do projeto.

Além do salário, um grande investimento é o de capacitação, cujo foco não deve estar nos aspectos técnicos, e sim sociais, do sentido do telecentro e de sua função na comunidade. “Para entender o que é inclusão digital, e que tipos de oportunidades e promoções culturais fazer. Isso leva tempo”, diz Silvana Lemos, da Cemina. O processo de formação é permanente: a Cemina realiza capacitações de quatro ou cinco dias em sua rede, há mais de três anos. Também é importante treinar várias pessoas em cada comunidade, para haver sempre alguém capaz de tocar o dia-a-dia do telecentro.

Pode-se buscar entidades especializadas ou alianças com outras redes para formar seu pessoal. O MetaReciclagem pode treinar técnicos de todo o país em São Paulo para montar e configurar máquinas e redes, instalar sistemas operacionais – com software livre e máquinas recicladas. Nas Casas Brasil do Rio de Janeiro e de São Paulo, monitores de outros projetos podem fazer estágios gratuitos. Basta entrar em contato com o coordenador regional. Verifique se no projeto de sua prefeitura ou governo estadual há essa possibilidade e também se entidades especializadas em capacitação, como Rits, sampa.org, Coletivo Digital, Escola do Futuro, Cidade do Conhecimento, têm algum curso marcado, ao qual o educador de seu telecentro possa se incorporar.

Há uma série de cursos online, principalmente em questões técnicas, para que os educadores não parem de aprender. O Serpro tem um sistema de ensino a distância para software livre e vai começar a oferecer cursos nessa rede para telecentros. Está fazendo um piloto com um curso para tutores de telecentros, de 40 horas, sobre informática básica e rede em software livre. Vai liberar 600 matrículas para a comunidade. A Rits está montando o Portal Telecentros para Inclusão Digital – Rede de Capacitação Continuada, para as 50 Casas Brasil que têm convênio com a Petrobrás.

Em iniciativas comunitárias, formação também é compromisso. Na rede Cyberela, a próxima capacitação será em técnica de computador e os participantes vão assumir a obrigação de dar a manutenção nos telecentros, além de prestar serviços a outros interessados. No MetaReciclagem, o compromisso é manter-se engajado na rede, ou seja, ajudar a multiplicar o conhecimento que recebeu, ao mesmo tempo em que se continua aprendendo.
051013 - edição de 13 de outubro de 2005 - A Rede ( www.arede.inf.br )

Espaço para as máquinas
O número de computadores disponíveis no telecentro – e o horário de funcionamento – vai definir sua capacidade de atendimento. A conta é simples: se o tempo de uso, em seu telecentro, é de uma hora por pessoa, um computador disponível doze horas por dia atende 12 pessoas por dia. O ideal é ter máquinas novas, que geram menos problemas de manutenção. Mas nem sempre isso é possível – ou necessário, diz Dalton Martins, do MetaReciclagem, movimento que recondiciona computadores usados para montar telecentros. Desmontar e montar computadores, configurar servidores, escolher o sistema operacional aberto indicado para cada máquina é o dia-a-dia de seus participantes. Quem aprende, também cria uma maneira de gerar renda. Sacadura Cabral, um espaço de inclusão – esporo – do Meta dá cursos pagos de informática. Ao final, os alunos ficam com o computador no qual aprenderam, por cerca de R$ 500,00, em dez vezes.

O maior doador de computadores do país é o Banco do Brasil. São máquinas usadas. Na última renovação de seu parque tecnológico, em 2003, o BB ofereceu 50 mil computadores para projetos de inclusão. Não há máquinas disponíveis hoje, mas o BB vai definir, no final do ano, a renovação do parque em 2006, e iniciar uma nova rodada de doações. Entidades interessadas podem se inscrever por meio de formulários encontrados nas agências do banco. A condição é que o projeto seja comunitário e dirigido à população sem acesso a tecnologias da informação .

As redes mais baratas são formadas por terminais sem disco rígido. A maior dificuldade é conseguir os servidores, que custam de R$ 2 mil a R$ 2,5 mil. O ideal para um telecentro, de acordo com Edgar Piccino, do ITI, é um servidor com clock de 2 GHz, memória mínima de 1 Gb, dois discos de 40 Gb, uma placa de rede 10/100, monitor de 15 polegadas. Mas pode-se usar máquinas menos potentes, desde que tenham um sistema operacional adequado. “O projeto pode ser feito em rede. O pessoal do Meta ajuda a definir o perfil técnico adequado à finalidade do telecentro, dá cursos e debate a gestão”, diz Martins. Além disso, integrar uma rede qualifica o projeto diante de possíveis doadores ou patrocinadores.

O espaço físico para o telecentro é um dos critérios mais importantes na escolha de parceiros, em programas oficiais de inclusão digital. Na maioria das vezes, a entidade fica responsável pelo espaço e pela sua segurança. Segundo Wilken Sanches, do Coletivo Digital, um telecentro com 20 computadores, três monitores e um coordenador deve dispor de 60 metros quadrados. E contar com uma área de convivência – onde o usuário espera sua vez e se desenvolvem outras atividades comunitárias.

A Intel, para efetivar uma doação de notebooks para a ONG Juventude Ativa, que pilota um telecentro no Jardim Antártica, em São Paulo, exigiu garantias de segurança do espaço. Por essa razão, a entidade colocou grades em todas as portas. Outras alternativas são colocar os equipamentos no seguro ou fortalecer intensamente a articulação com a comunidade. Essa interação local pode assegurar, até, o financiamento do próprio espaço. No Juventude Ativa, é o Supermercado Andorinha que paga o aluguel.

A rede Saci oferece, em seu site, um guia de orientações para montar telecentros sem barreiras para portadores de deficiências. O Serpro atua em parceria com o BB e presta serviços às entidades, fornecendo projetos para a adequação do local e da rede elétrica, de modo a gerar menos falhas nos equipamentos.
051013 - edição de 13 de outubro de 2005 - A Rede ( www.arede.inf.br )

Gargalo na conexão
Telecentros sem conexão à internet não são espaços de inclusão digital, afirma Marie Anne, da UnicenP. “O conceito de inclusão digital tem a ver com difusão de conhecimento. Não ter uma estrutura tecnológica que possibilite isso compromete a iniciativa”, diz ela. É preciso, além disso, que seja uma conexão de banda larga – para que as pessoas não passem torturantes minutos à espera de que cada página se abra. “O acesso discado é profundamente desestimulante, além de reforçar a baixa auto-estima do usuário”, explica Marie Anne.

Conseguir e manter uma conexão em banda larga, no entanto, é uma das maiores dificuldades dos telecentros. Elas são caras – uma conexão ADSL na Telefônica custa, em São Paulo, a partir de R$ 55,90, mais R$ 19,90 pelo provedor de acesso, por mês. E nem sempre estão disponíveis. Em muitas áreas das grandes cidades, não há capacidade para prover serviço ADSL – de transmissão de dados em alta velocidade na rede telefônica –, principalmente em áreas de baixa renda, porque as operadoras não identificam demanda que justifique o investimento para a oferta do serviço. Em lugares onde não há ADSL, a alternativa é a TV a cabo. Ou o satélite. Para usuários comuns, o link de satélite mais barato da StarOne é de R$ 400,00 o ponto, por mês. A taxa de instalação é de R$ 1 mil a R$ 2 mil e o adaptador, de R$ 400,00 a R$ 500,00. Para pacotes grandes, de múltiplo uso, há desconto de até 50%.

Para Luiz Antônio Carvalho, da Rits, uma parceria com o poder público é uma forma de conseguir conexão. O governo federal, por meio do Gesac, fornece 3,2 mil pontos de conexão via satélite, mas a instalação de 1,2 mil novos pontos está suspensa, porque o projeto passa por uma revisão (saiba mais). Se seu telecentro estiver perto de um ponto do Gesac, no entanto, há tecnologia para fazer um “puxadinho digital”, por meio de Wi-Fi, dessa conexão. A Rits fez isso no Pará, nos telecentros do Projeto Saúde e Alegria. E os governos estaduais estão incluindo, em editais de contratação de suas redes, uma contrapartida social das operadoras (saiba mais).

A dificuldade diminui se você estiver na área de cobertura da Vivax, operadora de TV a cabo, que dá conexão à internet em banda larga, de graça, para todas as escolas públicas – federais, estaduais ou municipais – e também para projetos educacionais ou de inclusão digital mantidos por ONGs, em sua região. Atualmente, são cerca de 109 instituições incluídas no programa, basicamente no interior de São Paulo e em Manaus.

A Vivax, infelizmente, é um exceção à regra. “Os provedores de serviços telefônicos não têm sensibilidade para oferecer conexão à internet com facilidade às comunidades”, constatou Rodrigo Alvarez, coordenador do CDI em São Paulo, ao negociar o provimento de banda larga para as EICs. O CDI criou, em São Paulo, o Fundo Conectividade, para conectar 11 EICs que ainda não contam com acesso à internet. É uma solução engenhosa: várias empresas contribuem para o fundo e as escolas se candidatam à receber a conexão por meio de um projeto no qual explicam como vão usá-la.

A conexão é um gargalo evidente, reforça Marie Anne, mas a grande questão é como usar esse acesso para gerar conhecimento para melhorar a vida das comunidades. “Essa é uma questão interdisciplinar, pode estar na Educação, na Segurança, no Trabalho ou nas ações de geração de renda”, explica. O importante é que o projeto se articule com muitas áreas de interesse. Seja universal.
051013 - edição de 13 de outubro de 2005 - A Rede ( www.arede.inf.br )

A escolha do software
O uso de softwares livres em telecentros avança por duas principais razões: o custo (pode ser obtido de graça na internet); e o princípio do compartilhamento de conhecimento, que está no centro dos propósitos de inclusão social desses projetos. Além de ser uma oportunidade de formar técnicos e programadores de alto nível no país, a comunidade do software livre trabalha em redes, que se articulam de forma colaborativa, num modelo afinado com a idéia de mobilização comunitária.

A difusão livre desses sistemas está permitindo a criação de distribuições (pacotes de aplicativos) adaptadas às especificidades dos diversos telecentros. A Rits assumiu o Sacix, uma customização do Debian criada na prefeitura de São Paulo, que garante o boot remoto das máquinas e leva em conta o fato de a maioria não ter disco. O pacote traz processador de textos, planilha, navegador, linguagem de programação, editor de imagem, de gráficos, de vídeo, banco de dados. A nova versão inclui formulários para cadastrar os usuários dos telecentros e registrar suas atividades. Estará no site do programa Casa Brasil e também num endereço dedicado ao sistema (veja o quadro).

A prefeitura de Porto Alegre está em fase de implantação do Maestro, sistema de gerenciamento em software livre. Permite cadastrar nome, data de nascimento, escolaridade, sexo, raça/etnia, endereço, estado civil, RG, trabalho/ocupação e renda média familiar do usuário. Apenas nome e RG são obrigatórios. Mas, enquanto os demais não forem preenchidos, o programa dará um alerta para o monitor, quando o usuário acessar o serviço.

Alguns desses sistemas podem ter dificuldades para rodar em redes heterogêneas. Foi o que constatou Pascal Daniel Angst, da Frente Digital, a área de tecnologia do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “Por isso, adaptamos o Sacix para as nossas condições”, diz. Daí nasceu o MSTix, a distribuição do MST, capaz de funcionar com máquinas de capacidades, placas e características completamente diferentes, algumas bem limitadas. O MSTix está no site da Frente Digital (veja a página 19), bem como a sua documentação. Pascal sugere, ainda, que os usuários recorram ao FocaLinux. “Verdadeiro compêndio do Linux, que está na internet”, conta.

No Paraná, o governo escolheu o Solis, da Solis Cooperativa de Software Livre, para, a partir dele, produzir sua própria versão. Por enquanto, 49 dos 50 telecentros da rede trabalham com o Latinux, adotado em toda a administração estadual. Apenas um telecentro opera com Windows. “É um telecentro para cegos e a solução de leitura de tela só roda em Windows. Esperamos que o Serpro libere a versão para Linux, em fase de conclusão, para migrar”, adianta Márcia Schüller, da Celepar.

Ainda persiste, contudo, a carência de pessoal para suporte nas plataformas abertas. “Não encontramos quem dê os cursos nem quem conserte ou resolva os problemas “, reclama Silvana Lemos, da Cemina. Por isso, ela recomenda às gestoras dos telecentros da entidade que trabalhem com dual boot – ou seja, a máquina tem os dois sistemas (Linux e Windows). Os usuários também podem se integrar às comunidades de software livre (veja o quadro), e buscar apoio de outras redes. O site do Casa Brasil, por exemplo, prevê um fórum para esclarecer dúvidas. E o Acessa São Paulo, que roda o Acessa Livre, vai colocar o sistema no seu portal até o final do ano, com os seus manuais.

Sugestões de consulta
Na internet, é possível encontrar guias, cartilhas, softwares, tutoriais e outros documentos sobre o fucionamento de telecentros. Alguns desses endereços foram reunidos aqui:

Informações gerais
www.tid.org.br
Portal Telecentros para Inclusão Digital – Rede de Capacitação Continuada. Espaço para troca de experiências entre os 50 telecentros da Petrobrás (Casa Brasil) e outros programas de inclusão digital. Vai reunir documentação sobre como montar telecentros, modelos de estatutos, aplicativos, materiais para capacitação de monitores e usuários, notícias e artigos. Previsto para ser inaugurado em outubro.

ONGs
www.rits.org.br
Rede de Informações para o Terceiro Setor, atua na montagem das unidades do programa Casa Brasil e de outras redes de telecentros, dá capacitação a monitores, implanta projetos em rede. Também mantém a distribuição Sacix.

www.coletivodigital.org.br
Coletivo Digital. Também participa do Casa Brasil, dá capacitação a monitores, oficinas comunitárias e implanta projetos de telecentros. Formado, em grande parte, pela equipe que implantou os telecentros da prefeitura de São Paulo.

www.cemina.org.br
Comunicação, Educação e Informação em Gênero. Além de informações sobre o projeto de rádio-telecentros, publica um excelente Manual do Projeto Cyberela, com orientações sobre a gestão de um telecentro, inclusive com modelos de planos de negócios. O manual está em www.cemina.org.br/PDF/cartilha_rede_cyberela.pdf

www.sampa.org.br
Sampa.org. Capacita monitores, agentes de redes e repórteres comunitários, elabora e implanta projetos de telecentros. Montou os primeiros telecentros da capital de São Paulo, na Zona Sul. É parceiro da Cemina e do Metareciclagem, entre outros.

www.gemasdaterra.org.br
A home dá link para o site da Gemas da Terra no Brasil e nos EUA. No portal brasileiro, a seção downloads traz o Guia Gemas da Terra de Telecentros Rurais e o Livro de Receitas de Telecentros para a África, da Organização Educacional Científica e Cultural das Nações Unidas.

www.cdi.org.br
Comitê para a Democratização da Informática. Mantém a rede de Escolas de Informática e Cidadania (EICs).


Softwares
www.sacix.org.br
Distribuição em software livre, mantida pela Rits, para telecentros .

www.telecentros.com.br
Portal do programa da prefeitura de Porto Alegre. Tem as apostilas para instalação e do editor de fórmulas matemáticas do OpenOffice (cedidas pelo Metrô de São Paulo).

www.metro.sp.gov.br/diversos/download/staroffice/teopenoffice112.asp
Site do Metrô de São Paulo com apostilas para softwares livres.

http://id.bsb.mst.org.br
Portal da Frente Digital, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), onde está o MSTix e toda a documentação da sua rede de telecentros (roteiro de instalação, apostilas, tutoriais, guias).

http://solis.coop.br
Solis Cooperativa de Software Livre, que desenvolve várias ferramentas em plataformas abertas.

www.guiadohardware.net
Site de Carlos Morimoto, criador da distribuição Linux Kurumin, com dicas, tutoriais, dicionários, notícias, relação de distribuições Linux em CD, e muita coisa sobre sistemas abertos.

http://caetect.cipsga.org.br
Site da distribuição Caetect. Considera a existência de equipamentos antigos (486, Pentium 90, etc), como terminais burros, junto a um servidor robusto (mínimo Pentium 700).

http://listas.cipsga.org.br/cgi-bin/mailman/listinfo/telecentros
Lista de discussão sobre projetos de telecentros, com membros de todo o país.

http://focalinux.cipsga.org.br/
FocaLinux – Megamanual com todos os comandos do Linux. Para nível iniciante, intermediário ou de superadministrador.

Projetos governamentais
http://www3.pr.gov.br/e-parana/atp/telecentro/apresenta.php
Paranavegar, programa dos telecentros do estado do Paraná, com farta documentação: estrutura física e lógica para a instalação de um telecentro; modelo de proposta de estágio; regras para contratação de voluntários; além de material dirigido a monitores.

www.identidadedigital.ba.gov.br
Projeto de telecentros do governo da Bahia, que usa o software livre Acessa Berimbau, para gerenciar seus infocentros.

www.acessasaopaulo.sp.gov.br
Programa Acessa São Paulo, do governo do estado. Até o final do ano, a intenção é publicar os softwares utilizados nos infocentros (o Acessa Livre inclusive) e toda a documentação sobre o projeto.

http://www.portoalegre.rs.gov.br/
Site da prefeitura de Porto Alegre, com contatos para a Secretaria de Direitos Humanos e Segurança Urbana, onde o Maestro, software de gerenciamento de telecentros pode ser solicitado.

www.mct.gov.br
Ministério da Ciência e Tecnologia. Mantém o programa dos Centros Vocacionais Tecnológicos (veja a página 24) e faz a coordenação nacional do Casa Brasil (veja a página 22)

www.iti.br – Informações sobre o projeto Casa Brasil.

www.iti.gov.br – Site do ITI

Hardware
www.bb.com.br
Banco do Brasil, com link para a Fundação Banco do Brasil.

www.metareciclagem.org
Movimento MetaReciclagem, ensina a recondicionar máquinas usadas e capacita técnicos em software livre.

www.serpro.gov.br
Serviço Federal de Processamento de Dados
Antônio Carlos Miranda da Silva (Cabelo), coordenador nacional do projeto de inclusão digital, ou Edson Macedo, coordenador no Rio de Janeiro, fornecem projetos para adaptação dos espaços físicos e redes elétricas de telecentros e mobilizam voluntários para instalação da rede. Tel.: 21 2159.6814.

Conexão
www.vivax.com.br
www.idbrasil.gov.br
Portal do Gesac, programa do Ministério das Comunicações que dá conexão à internet e muitas ferramentas colaborativas para projetos de telecentros.

www.idbrasil.org.br
Portal freqüentado pelos coordenadores dos pontos de presença do Gesac em todo o país. Há muitas discussões úteis sobre a rotina dos telecentros.

Universidade
www.cidadeusp.br – Cidade do Conhecimento. Dá capacitações.
www.futuro.usp.br – Escola do Futuro. Dá capacitações. Parceira do Acessa São Paulo.
051013 - edição de 13 de outubro de 2005 - A Rede ( www.arede.inf.br )
( 051013 - )

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