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Alfredo Luiz Santa Rosa - pioneiro na ação social em Cabo Frio
Já era madrugada quando o neto do pescador apareceu esbaforido na porta do casebre, a pouca distância do mar, na Praia Grande, em Arraial do Cabo. Num dos cômodos da casa, sobre uma cama improvisada, ao lado de uma rede e inúmeros apetrechos de pesca, um homem de meia idade, abatido pela bronquite asmática, arfa, semi-acordado.
- Vô, as fogueiras estão acesas, alerta o menino, ainda em pé na semi-escuridão da porta do quarto.
Uma luz percorre os olhos mortiços do pescador, que levanta a cabeça, com a esperança de socorro: “ Mel inglês”, ele pronuncia, “ Mel inglês”. Com grande esforço ele se levanta vagarosamente e amparado pelo menino deixa a casa em direção a areia da praia: da soleira da porta vira, ao longe, cinco ou seis pequenas fogueiras ardendo ao longo dos três primeiros quilômetros da Praia Grande.
Sem dúvida, tinham sido acesas ao cair da noite e agora, perto do dia amanhecer, algumas apenas riscavam a noite levemente, já perto de se apagarem. Certamente já teriam atingido sua finalidade: desorientar os mestres dos navios estrangeiros que trafegavam pela costa brasileira, levando-os a confundí-las com faróis de orientação náutica. As embarcações que se aproximavam do continente para melhor orientar-se fatalmente caminhavam para uma armadilha natural, colidindo com a ponta do cabo ou com a ilha, que parecia lhes surgir a frente, do nada. Este tinha sido o destino do cargueiro Paraná e de muitos outros.
O pescador estava certo. Já perto da Segunda fogueira viu inúmeros vultos se movimentando na água rasa, com alarido, com as roupas arregaçadas nas pernas, colhendo as sobras de mais um naufrágio. Caixas e mais caixas eram abertas e pilhadas e as ondas continuavam trazendo mais destroços da embarcação até a praia: entre eles, caixotes de madeira de diversos formados, latas, caixas de papelão. Num deles já aberto, os olhos do pescador viram as garrafas há tanto tempo ansiadas, o único medicamento que lhe aliviava a falta de ar, durante as crises asmáticas: mel inglês. Com uma faca ele quebra o gargalo e despeja o conteúdo na garganta, ávido pelo alívio.
Ao invés disso, piora sensivelmente, cai engasgado ao chão, tentando livrar-se do líquido viscoso que lhe tomara a garganta. O neto chega a tempo de socorrê-lo do engasgo, aplicando-lhe um poderoso tapa nas costas, que o faz cuspir na areia da praia, uma bola grande de ....verniz !!!
"AGUA INGLESA"
Esta era uma das histórias preferidas do farmacêutico proprietário da Farmácia Nossa Senhora da Assunção, Alfredo Luiz Santa Rosa. Sua farmácia, localizada á Praça Porto Rocha - onde atualmente se encontra o Edifício Adib Mureb, era uma referência na cidade. A “Botica”, como era conhecida, dava frente para a praça - o que custava a Alfredo 54$000 de imposto predial - e tinha uma amplo salão, com armários de madeira e vidro até a altura do teto repletos de medicamentos. Logo a seguir, uma porta em arco dava para outro compartimento, onde o farmacêutico instalou um equipamento, todo em cobre, para destilar água, que era utilizada na fórmula de alguns medicamentos e também abastecia oficinas mecânicas e postos de gasolina: era o distribuidor do produto na cidade. Nesta mesma sala ficavam ainda inúmeros garrafões de vidro coloridos, cheios de “Agua Inglesa” um xarope produzido por Alfredo Santa Rosa e de larga aceitação na cidade.
Além de revender remédios comprados em laboratórios, ele manipulava uma centena de substâncias, compondo fórmulas para combater as mais diferentes moléstias . Atendia também o Arraial do Cabo . Lá preocupavam-no especialmente doenças do aparelho circulatório, muito comuns no distrito, 15 km distante do centro de Cabo Frio. Costumava dizer que a população do lugar herdara a fraqueza dos pulmões europeus, mais especificamente dos franceses que se estabeleceram por lá nos primórdios. Quando ia ao Arraial, costumava levar no carro uma grande porção de xarope, que distribuía indistintamente nos lugares por onde passava. Não se sabe se foi testemunha ocular do infortúnio do velho pescador, que no escuro da noite confundiu a garrafa de verniz com a de mel inglês, ou se era apenas mais um causo , dos muitos que envolvem os cabistas, mas Alfredo Santa Rosa sempre contava esta história em reuniões de família, quando o assunto era o Arraial do Cabo.
Natural de Campos, Alfredo Luis de Santa Rosa foi um dos fundadores da Associação Comercial de Cabo Frio, em 1932, apoiado por empresários locais do setor salineiro, entre eles Djalma Azevedo e Nico Felix. Era filho de Benjamim Santa Rosa e D. Romana, que moravam em Armação dos Búzios. Quando D. Romana ficou viúva trouxe o filho para Cabo Frio, passando a morar na Rua Nova da Barra, atualmente Jorge Lóssio. Fez seus estudos no Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, por influência de seu avô, Frei Luiz de Santa Rosa.
Alfredo Luiz Santa Rosa casou-se em maio de 1902 com D.Leonor de Azevedo Santa Rosa, também natural de Barra de São João e teve quatro filhos: Cacilda, Oswaldo, Jacira e o caçula Alfredo Santa Rosa, que lhe sucederia a frente da farmácia.
Os Santa Rosa seriam descendentes da família de Miguel Cardoso de Mendonça, vinda da Ilha Terceira, que chegou a Cabo Frio entre 1670 e 1690. Ao chegar arrendaram dos frades de São Bento uma gleba de 200 braças de testada por 200 braças de fundo, no lugar hoje conhecido por Porto do Carro. Embora autodidata em matéria de farmacologia, Alfredo Luiz Santa Rosa estudou no Rio de Janeiro e era homem influente, de muitas atividades: compadre de José Massa, foi, como ele, proprietário de jornal, dirigindo o Itajurú, em 1917. Foi ainda suplente de Juiz de Direito, promotor, Comissário e Delegado de Polícia. Na política exerceu ainda a função de Secretário da Câmara Municipal de Vereadores, em substituição a Diocleciano da Cunha Duarte, em 1905. Foi o braço direito do presidente da Casa, José Antônio Porto da Rocha.
O CAMINHÃO "JONJOCA"
Praticamente introduziu o transporte mecanizado ao adquirir, desmontado, em Macaé, o primeiro caminhão da cidade, batizado de Jonjoca e que ostentava uma grande estrela reluzente no radiador. O veículo foi montado em um galpão de Cabo Frio e quando ficou pronto quase destruiu o prédio em acidente: um engano no uso da alavanca de câmbio fez o caminhão andar para frente, ao invéz da ré, colidindo com a a parede. A compra do veículo lhe trouxe alegrias - pelo interesse que o caminhãozinho despertava nas ruas - mas acabou lhe trazendo aborrecimentos: os carroceiros da cidade, desapontados com a disputa desigual pelo frete do transporte das cargas começaram a organizar-se e protestar contra a presença do veículo na cidade.
Alfredo Santa Rosa achou melhor vender o caminhão, que acabou incorporado, pelo novo proprietário, aos bens públicos municipais, passando a fazer a coleta de lixo da cidade. Coube-lhe também a façanha de realizar a primeira viagem rodoviária entre Cabo Frio e Niterói: “ Chegou a esta cidade a meia noite de terça-feira passada o nosso amigo Alfredo Luiz de Santa Rosa, acompanhado de seu filho, dirigindo um vistoso Chevrolet, tendo gasto no percurso 13 horas apenas” escrevia o advogado José Massa em A Columna de 22 julho de 1928, parabenizando o farmacêutico pela façanha.
Era, ainda, um admirador dos rituais africanos, tendo feito a descrição, para o historiador Abel Beranger, de como os negros festejavam São Benedito, na Igreja da Passagem, dançando jongo, ao som de instrumentos próprios. Observou que eles paravam a dança quando algum branco tentava meter-se na coreografia, passando a entoar um cântico próprio para a ocasião, afim de afastar o intruso.
Sobre a Festa do Divino Espírito Santo, contou que um magistrado local que se negara a receber em sua casa a bandeira do Divino Espírito Santo, alegando não gostar da Folia de Reis, acabou pedindo socorro á Igreja á noite, por sentir “ um calor que queimava as entranhas”. Na área literária, sabe-se de pelo menos duas contribuições de Alfredo: o manuscrito “ Cabo Frio antigo”, de destinação ignorada e um livro com as fórmulas dos medicamentos que manipulava em sua farmácia. Esta obra foi dada como presente ao médico Tenório Cavalcanti, por seu neto Sérgio Santa Rosa, em reconhecimento pelos serviços prestados á família, em especial no atendimento ao pai de Sérgio, o caçula do patriarca, músico Alfredo Santa Rosa.
O SAL NO APOGEU
Cabo Frio sempre viveu do sal e isso era particularmente evidente nas primeiras décadas de 1900.Através das divisas recebidas com a venda do produto em larga escala, a cidade começava a se desenvolver. O Jornal do Commércio publicava em outubro de 1928 nota sobre a autorização do Ministério da Viação, liberando recursos para a construção de uma linha férrea de 15 km de extensão, ligando o Porto do Forno, no distrito de Arraial do Cabo, á usina de sal da Companhia Salinas Perynas, na sede do distrito. A função do ramal era estritamente industrial, com o intuito de facilitar o abastecimento de sal grosso e o escoamento dos produtos da empresa por mar. Desde o início do século, o transporte de passageiros e de carga era feito lagoa através das lanchas “ Progresso “ e “ Liana” da Empresa de Transportes Norte Fluminense, que havia sido fundada por José Paes de Abreu, em 1917.
Em 1923 a empresa adquiriu a “ Cometa” e em 1924 a “ Palestina”. Em 1929, somente as duas últimas ainda estavam funcionando. Elas levavam os passageiros e encomendas até Iguaba, onde ficava o terminal ferroviário da Estrada de Ferro Maricá, e encostavam os trens que partiam de Neves, em Niterói, quatro vezes por semana.Por conta da precariedade dos transportes, desde 1927 a cidade só tomava conhecimento do que acontecia na capital do Estado e no Distrito Federal após as duas horas da tarde. Era nesse horário que chegavam os malotes do serviço postal.
Apesar do preço do sal vir sofrendo quedas consecutivas no preço do saco, devido a concorrência com o sal do Rio Grande do Norte, esse recurso natural era decisivo na economia da cidade: para se ter uma idéia, eram as empresas produtoras de sal de Cabo Frio que sustentavam financeiramente a Casa de Caridade Macaé, e o hospital da Irmandade Santa Isabel. Juntas, as empresas Pereira Bastos, C. Taboada, Ribeiro & Lessa, Beranger e Cia, Souza Matos e Cia, Companhia Salinas Perynas, Pring & Cia, e Branco Costa, destinavam mensalmente quotas de sal que giravam em torno de 3:364$700. Desse total, o hospital ficava com 2:904$750. Ajudaram ainda na construção do colégio das irmãs franciscanas.
No artigo “ Uma boa renda para a União” o mesmo jornal observava que nos últimos 19 anos a Coletoria Federal havia arrecadado em Cabo Frio 13.828 contos 917 mil 200 réis de impostos sobre o sal e “ nenhum melhoramento havia sido obtido”. O comércio queria a abertura da barra, para facilitar o tráfego marítimo e a extensão da E.F. Maricá até a cidade. A partir de junho de 1929 a direção da ferrovia começou a dar sinais de que satisfaria a pretensão da população cabofriense, ao anunciar que a E.F. Maricá começaria a aceitar despachar mercadorias para o Distrito Federal através de suas estações, desde que estes se sujeitassem a pagar uma pequena taxa de transporte entre as estações de Neves e Rio de Janeiro. E pouco mais de seis meses depois, o Superintendente da ferrovia, José Pedroza Jr. visitava Maricá anunciando a diminuição de 48$000 no frete de cada vagão de 15 toneladas de sal, entre Iguaba e Neves.Em março do ano seguinte, as estradas de ferro Maricá e Leopoldina anunciavam a criação do “tráfego mútuo” com o frete do saco de sal a 1$488. Os salineiros felicitaram a ferrovia pela iniciativa.
No final da década de 20 a cidade parecia viver uma época de efervescência, com inúmeros lançamentos de embarcações e melhoramentos. Além das cédulas do dinheiro oficial, um outro papel emitido pelos comerciantes de sal tinha poder de compra na cidade. A casa comercial “ Ao Grande Queima” distribuía panfletos procurando atrair o público feminino, informando que descontava recibos de sal em troca de tecidos e ainda dava 75% em dinheiro sobre o valor total do papel.
O transporte de sal por via marítima também era grande: em outubro de 1928 haviam sido despachadas pelo porto 73.678 sacos de sal e 41.027 sacos de 45 kg de cal, produzidos pelas salinas de Cabo Frio, Araruama e São Pedro da Aldeia. Mesmo assim, o país ainda importava 100 mil toneladas do exterior.O tráfego de embarcações também era grande; 59 barcos haviam sido despachados pela aduana no mês. Na noite de 27 para 28 de janeiro de 1928 duas embarcações cabofrienses, o “ Leão do Norte” e o iate “ Eva” , este da firma Beranger e Cia, colidiram ao sul da Ponta Negra, na costa de Maricá, indo a pique. Morreram no naufrágio do Leão do Norte os tripulantes Henrique Trindade, Marcelino Loureiro, Francisco Anselmo e o marinheiro mais antigo da cidade, Maurício Cardoso de Salles.
No primeiro terço do século, a cidade tinha cerca de 3.500 prédios, entre casas e comércio e o Imposto Predial era cobrado através de listagem publicada com o nome da rua, do morador e do valor a pagar. Sabia-se, naquela época, quanto cada um pagava de imposto. Esperava-se para breve a chegada do telefone e apesar da economia em franco progresso, alguns serviços da cidade eram precários: a água era captada numa lagoa de restinga existente onde atualmente é a rodoviária Alexis Novelino e bombeada através de motor de cinco cavalos da Fonte do Itajurú para uma caixa d´água atrás do convento, de onde fluía por gravidade para as casas. E não conseguia suprir nem um terço da demanda, que segundo os cálculos do engenheiro da Diretoria de Obras do Estado, A. Rangel Filho, era de 12 litros por segundo. O engenheiro veio estudar o potencial do manancial existe no bairro Braga, para suprir a lacuna no abastecimento.
Somente muitos anos depois, em 1945, por iniciativa do Estado, foram realizados diversos poços artesianos no bairro Braga e instalada numa casa do bairro outra bomba para abastecer outra caixa d´água existente no alto do Morro da Guia.O serviço de abastecimento foi inaugurado em 1951 e também se revelou insuficiente, sendo necessário utilizar parte da água aduzida pela Cia Nacional de Álcalis para complementá-lo.
Mais tarde o Estado constrói sua própria adutora, instalando uma estação de tratamento em Juturnaíba. Em matéria de energia, a cidade tinha que produzir sua própria eletricidade, a partir da queima de carvão vegetal. No povoado vizinho de São Pedro da Aldeia a situação era pior: não havia iluminação, a não ser na base do lampião.
Em fevereiro de 1928 a concessionária, Balesdent e Cia, informava que a luz domiciliar deveria ser paga até o dia 15 nos escritórios da Companhia, a Rua Major Bellegard número 27. A Prefeitura vivia recebendo queixas do serviço, através da Câmara e dos próprios cidadãos. Trocavam-se mensalmente cerca de 50 lâmpadas nos postes, que o vandalismo se encarregava de apagar a pedradas. Nem as destinadas a iluminar a ponte Feliciano Sodré, eram respeitadas.
Queria-se a abertura de concorrência pública e o Poder Executivo pedia tempo para estudar o assunto. Em abril de 1929 foi aberta concorrência pública para o serviço mas tudo continuou do mesmo jeito, porquê não apareceu interessado . Dois anos antes, acontecera a mesma coisa em relação ao matadouro municipal, e apesar das inúmeras vantagens oferecidas em edital o serviço continuou a cargo do Sr. Alfredo Pereira de Souza Junior. O edital para a licitação de energia e iluminação da cidade dava 15 anos de concessão á empresa que construísse uma usina de energia com dois grupos independentes de 65 HP para gerar corrente de 110 volts para luz e 220 para a força. As propostas deveriam especificar o preço da iluminação pública entre 2 e 5 da manhã. A força começaria a ser distribuída as 6 da manhã até a 17hs. A proposta seria acompanhada de caução no valor de cinco contos de réis aos cofres públicos e uma vez aceita a proposta a usina deveria estar funcionando dali a 360 dias.
A Balesdent assinou o contrato com a Prefeitura e começou a construir a usina no fim da década de 30. Para a construção do Matadouro Municipal o prazo da concessão - 15 anos - e o valor da caução - 5 mil contos de réis - eram os mesmos. A inflação era mínima: o contrato previa reajustes nos valores de abate cobrado aos proprietários de animais apenas no sexto e no décimo ano de funcionamento do serviço.
Em relação a produção de sal, os empresários cabofrienses do setor viviam de olho na política do governo do Estado do Rio Grande do Norte em relação ao produto. A criação da Inspetoria Geral de Salinas do Rio Grande do Norte, que dividiu aquele Estado em três circunscrições para efeito de acompanhamento da produção de sal, criando laboratórios de pesquisa, regulando propaganda, cadastro, monitorando a qualidade do produto e regulando o estoque, mereceu quase todo o espaço da primeira página de A Colunma. Eram evidentes os esforços do advogado, empresário do setor e jornalista José Massa, diretor do jornal, em alertar as autoridades da cidade e do Estado do perigo, para a economia local, que representava a melhora da qualidade do sal grosso concorrente. Era também curioso o respeito que o jornal - de situação - devotava ao professor Miguel Couto, médico e salineiro proprietário de vastas extensões de salinas no município: referia-se a ele como “ figura máxima contemporânea da sciência médica brasileira”.
GUARDA-CHUVA
Por todos esses motivos é que Alfredo Santa Rosa encontrou apoio imediato dos salineiros, ao decidir fundar a Associação Comercial, no início da década de 30. Também os reflexos da Revolução, com a queda da República Velha, teriam influído na decisão. Além disso, a fiscalização de tributos de Getúlio Vargas causava agora grande incomodo, com a criação do Imposto sobre Vendas e Consignações, código aplicado de forma rigorosa e implacável sobre os comerciantes. A Associação era uma espécie de guarda-chuva protetor: mesmo sem sede própria, realizando reuniões nas casas dos próprios associados, através dela os comerciantes defendiam-se das multas, e obtinham orientação quanto aos melhores procedimentos para enfrentar a fiscalização. A conscientização de que o comércio precisava contribuir para o desenvolvimento da cidade e do Estado foi vagarosa e demandou muito tempo. Alguns adquiriam os livros necessários para as escrituração fiscal, mas não os preenchiam. Outros, simplesmente os lançavam no canal - ás vezes incentivados por fiscais inescrupulosos.
Curiosamente, desde o início, a Associação contou com associadas mulheres. Eram viúvas de comerciantes, que elevadas - de uma hora para outra a condição de dirigentes - buscavam o apoio da entidade especialmente por causa da necessidade de orientação para lidar com a fiscalização.
Três delas associaram-se quase ao mesmo tempo: D. Zelína, no ramo de panificação, a quitandeira Sofia Issa e D. Sara Karam. Acometido, em 1947, de câncer do fígado, Alfredo Santa Rosa morreu no início da década de 1950. Sua filha Cacilda, herdeira de sua veia artística e intelectual, marcou presença nas artes como artesã, pianista, cantora, atriz e produtora de teatro. Por cinquenta anos foi organista, regendo o coro da Paróquia de Nossa Senhora da Assunção.
Outro descendente, o professor e poeta Afonso Santa Rosa, dedicou-lhe um poema, no livro “ O Artesão”: “Lembro-me ainda do meu avô/Já sentindo o tempo/Preparando lá no fundo/ Xaropadas - Invenções curativas/para sanar a dor e o infortúnio.
Da morte do meu avô/presente na minha memória/Morreu de tanto atender a dor/dor de todos/dor de vida/não me lembro de mais nada.”
O MATADOURO MUNICIPAL
Desde fins do Século XIX o governo municipal era o intermediário entre os produtores rurais e o consumidor, quando se tratava de abastecimento de carne. O município encarregava-se de abater os animais para os produtores, mantendo uma tabela de preços para o gado bovino, suíno, caprino ou lanígero (carneiros) . Em 1927 esta função estava a cargo de Alfredo Pereira de Souza Junior , mas o governo municipal abriu concorrência para a construção e exploração de um matadouro modelo. Da primeira vez não apareceu ninguém, apesar de alguns benefícios acenados pelo Poder Público, mas finalmente empreendedores privados construíram à margem do Canal Itajurú, no Portinho, um prédio de alvenaria, obedecendo ás exigências do edital: paredes de tijolos com telhas francesas, paredes internas guarnecidas por azulejos brancos e um curral de madeira anexo, com capacidade para até 20 cabeças de gado, por até oito dias.
O contrato, com validade de 15 anos, foi assinado com uma caução de cinco mil réis, e previa reajustes nos preços no sexto e no décimo ano de funcionamento do Matadouro. Os produtores que queriam abater suas cabeças vinham tangendo o gado pela Estrada dos Passageiros, até a única entrada da cidade, a ponte Feliciano Sodré .
Uma vez cruzada a ponte, os animais estavam já próximos do curral. No entanto, não era raro acontecer que, por chegar a um ambiente estranho, às vezes alguns animais relutassem em seguir o caminho do curral e assustados, embicavam, embalados, em direção oposta, ás vezes chegando ás ruas do centro de Cabo Frio, que se via, assim, de uma hora para outra transformada na espanhola Sevilha, assustando uns e divertindo outros.
Entre o curral e o matadouro não havia comunicação direta. Os bois eram laçados, arrastados e ás vezes se soltavam.Como não havia muito rigor na fiscalização, o local, após o uso continuado, por anos , exalava mau cheiro, devido ao sangue dos animais abatidos, que atraiam moscas. Uma parte do sangue, que não escorria para o canal, coagulava no local. Mesmo assim era o local preferido de alguns desocupados e também das crianças, que subiam nas cercas do curral para cutucar os animais presos, á espera do facão do administrador. Eram comuns chegarem á tribuna da Câmara, na voz dos vereadores, reclamações dos moradores em relações aos vândalos que mexiam com os animais. Era, no entanto, rentável para os cofres públicos: em janeiro de 1929 a Prefeitura contabilizou como renda do Matadouro a quantia de 419$400.
Até 1950 com todos os seus prós e contras, aquele serviço público foi tolerado pela população. Com a construção do Costa Azul Iate Clube, do outro lado do canal e a expansão imobiliária do bairro Portinho, o Matadouro Municipal começou a ganhar inimigos poderosos, pois ninguém compraria casas a tão pouca distância de um local de tão mau aspecto e história. Isso foi o que viria a determinar sua transferência pelo governo municipal, para outro local.
Numa noite em que o curral estava vazio, três homens se esgueiravam , entre as altas árvores da praça defronte ao cemitério. A iluminação pública fraca contribuía para que levassem adiante um plano audacioso. Um deles vigiava o caminho sob a ponte, a fim de avisar os outros dois a respeito da presença de algum boêmio indesejado caminhando pela noite de volta para casa. Afinal, o que iriam fazer não podia ter testemunhas. O matadouro estava desguarnecido, projetando sua sombra tênue sobre as águas do canal, que corriam mansas no silêncio daquela noite, no sentido da vazante.
O homem que vigiava a estrada acenou para os demais avisando que o caminho estava livre. Calcularam que entre 5 a 10 minutos seríam o suficiente para estender dois fios pela praça, atravessando a rua até um ponto vital na parede do prédio. Quando tudo estivesse pronto, o homem que estava na outra extremidade dos fios, num apartamento, seria avisado e piscaria a luz para alertar que o detonador seria acionado. Na hora acertada, o detonador foi acionado e nada aconteceu a banana de dinamite encaixada na parede. Irritado, um deles vai a praça:
Porra, Nail, o que quê houve....
Cacete, Xela, num fala o meu nome...
Ocê falou o meu....
É melhor é desmanchar tudo...
Na noite seguinte a mesma operação se repetiu e deu xabú novamente. A banana não explodiu.
O jeito é a gente chamar um perito nesse assunto...
Bem, os fios estão dando corrente - disse o perito contratado verificando a instalação. O detonador também está legal. Agora vamos ver a colocação do TNT - disse sussurrando para Nail, na terceira tentativa noturna de implosão do matadouro. Ora, desse jeito não podia mesmo funcionar. Vamos precisar de um pouco de barro para isolar a banana. Foi só isso que faltou”, disse o perito, com a simplicidade daqueles que conhecem o assunto.
A RÁDIO DE NEWTON
O fiscal de rendas aposentado Newton Novelino chegou pela manhã á salinha na Rua Major Bellegard de onde irradiava notícias através de seu sistema de alto-falantes, que tinha inúmeras cornetas nos postes da Praça Porto Rocha. Funcionava á tarde e a noite e se constituía no entretenimento dos cabofrienses. Irradiava músicas, recados amorosos, comunicava casamentos, batizados, festas, a presença de artistas que se apresentavam na cidade. Durante alguns períodos foi, na verdade, o único meio de comunicação de massa (se é que se pode chamar assim) de que a cidade se valia para transmitir notícias diárias.
A primeira emissora, a Rádio Cabo Frio, cuja concessão havia sido dada ao advogado Hilton Massa pelo presidente Juscelino Kubistchek, só começaria a irradiar em 1961.O sistema de alto-falantes tinha sido implantado na cidade pelo empresário José Paes de Abreu e Newton o havia adquirido. Os jornais que circularam na cidade saiam apenas uma vez por semana, geralmente ao sábados.
Naquela manhã, ao chegar ao estúdio, Newton Novelino parecia um pouco agitado. Primeiro, colaboradores haviam batido á sua porta, para lhe dar a notícia. Depois, como bom repórter, quis constatar pessoalmente o fato . E viu, consternado, o velho matadouro parcialmente destruído, com uma parede ao chão e parte do telhado desabado. Retornando ao estúdio, com a testa suada pela caminhada, a boca franzida de revolta e indignação, vociferou no alto falante:
- “Mãos criminosas, na calada da noite, dinamitaram o matadouro municipalllll!!!.
”Á transmissão extraordinária da notícia seguiu-se um longo sermão recheado de especulações sobre os autores do atentado. Mas a derrubada do matadouro nunca foi investigada e acabou caindo no esquecimento: o velho prédio já não era mais do agrado de ninguém. E o prefeito da época, Nicanor Pereira Couto, não teve outra alternativa a não ser transferí-lo para o Guriri.
Nota: Esta biografia, inédita, faz parte da coletânea “ Dirigentes Empresariais Cabofrienses” que a Associação Comercial de Cabo Frio pretende publicar até abril de 2007. O trabalho, iniciado em agosto de 2005, compreende cerca de 30 biografias de todos os ex-presidentes da entidade, desde o presidente-fundador, Alfredo Luiz Santa Rosa, em 1932, até os dias atuais. A Secretaria Municipal de Governo de Cabo Frio percebeu a importância social da ação, no sentido de resgatar parte da memória econômica do município e juntou-se ao grupo de apoiadores privados que deu origem a pesquisa, feita pelo jornalista Ralph Bravo.
Escolhemos Alfredo Luiz Santa Rosa por considerá-lo um dos pioneiros da ação social na Região, ao assistir gratuitamente a população com o seu xarope medicinal “Água Inglesa”.
Indicados pela presidência da Acia, deram apoio á pesquisa as seguintes empresas: Engeluz, Instituto de Idiomas Yazigi, Ortobon, Residence Hotel, Bonif Sucos, Lagos Tv, Casa Beiramar, Magnauto, Central das Cópias, Mamma Flora, Corpo em Movimeno, VWV Informática e Fricarnes. ( 060929 - )
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