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CABO FRIO - 500 ANOS DE HISTÓRIA

 

 

 

 

A Cidade de 388 anos com 5 Séculos de História

Cabo Frio festeja tese de que foi sede, no século XVI, da primeira feitoria de exploração do pau-brasil no país

Embora tenha 388 anos de fundação, a cidade de Cabo Frio, na Região dos Lagos, está em festa para celebrar seus 500 anos de história. Estranho? Nem tanto, como mostra o pesquisador Márcio Werneck, no livro “A fortaleza-feitoria de Américo Vespúcio — 1503 a 1512”, que será lançado em novembro — provável mês da chegada do navegador ao lugar. Segundo estudos, Vespúcio criou em Cabo Frio a primeira feitoria portuguesa em terras brasileiras para a exploração do pau-brasil. Tese endossada pelo escritor Eduardo Bueno, autor da coleção Terra Brasilis, sobre a História do Brasil.

Sem provas documentais, a tese de que a colonização do país começou por Cabo Frio é polêmica. Werneck afirma que a cidade é mais importante historicamente até mesmo do que Ouro Preto (MG). Como parte dos festejos dos 500 anos, será realizado um seminário sobre o tema nos dias 4 e 5 de novembro.

Escritor diz que o termo ‘brasileiro’ nasceu na cidade
Participarão do seminário o almirante Max Justo Guedes, diretor de Patrimônio Histórico e Cultural da Marinha — especialista no assunto — e o escritor Eduardo Bueno, que está escrevendo um livro sobre Vespúcio.
- A idéia corrente é de que o Brasil nasceu em Porto Seguro. Mas, na verdade, lá se deu um episódio fortuito. Cabral chegou lá, ficou dez dias e foi embora. O Brasil começa a nascer mesmo na chamada feitoria de Cabo Frio, que foi o primeiro estabelecimento europeu ao sul do Equador, o primeiro lugar onde os portugueses se instalaram no Brasil, por mais de 20 anos — afirmou Bueno, lembrando que em Cabo Frio nasceu o termo “brasileiro”, para classificar aquele que lidava com a exploração do pau-brasil.

Polêmicas à parte, o assunto mobilizou toda a cidade. Os 140 mil habitantes estão em festa, pois, com a criação do projeto Cabo Frio 500 Anos, de revalorização do patrimônio histórico, arqueológico e cultural, a cidade só tem a ganhar. Principalmente no que se refere ao turismo. A idéia, segundo o prefeito Alair Corrêa, é mudar o perfil do município.
— Com as comemorações dos 500 anos, Cabo Frio começa a buscar outros visitantes, aqueles que se interessam pelas cidades históricas. A cidade pode recebê-los o ano inteiro e não somente no verão — disse Corrêa, lembrando que as belezas naturais e culturais da cidade são o enredo da escola de samba Imperatriz Leopoldinense para o próximo carnaval.

Presidente da Comissão dos 500 Anos, Gustavo Beranger diz que o objetivo da festa é mostrar que Cabo Frio — a sétima cidade mais antiga do país — tem muito o que contar.
— A infra-estrutura da cidade está melhorando e o povo, interessado em preservar e divulgar a cidade. O cabo-friense está orgulhoso de sua história — garantiu Gustavo Beranger.

Iphan: população ajuda a preservar monumentos
Atrações não faltam para despertar o interesse do visitante que quiser ver mais que praias e dunas. Representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no município, Dolores Tavares diz que Cabo Frio tem uma grande riqueza histórica, arqueológica e cultural.
— Não há como comparar Cabo Frio com Ouro Preto, até porque são ocupações de épocas distintas. Mas o valor histórico é inegável. A população está mobilizada e ajuda a preservar os monumentos — disse Dolores.

Quem chega à cidade logo se depara com um patrimônio tombado pela União: o conjunto arquitetônico do Morro da Guia — com a Capela de Nossa Senhora da Guia e o Convento de Nossa Senhora dos Anjos — e o Forte de São Mateus. Além disso, há 48 sítios arqueológicos (sambaquis), alguns deles na Área de Proteção Ambiental (APA) do Pau-Brasil, criada há cerca de um ano. Esses sítios mostram que a ocupação da região pode ter começado há seis mil anos.

Isso sem falar no bucólico Bairro da Passagem, onde ficam o Beco do Príncipe e a Igreja de São Sebastião. Belezas naturais e história andam lado a lado em Cabo Frio, desde onde tudo começou, no Morro do Arpoador, na boca da barra da Lagoa de Araruama. Um pouco mais afastada, a Fazenda Campos Novos — onde está a Capela Santo Inácio, erguida pelos jesuítas — foi recentemente tombada pelo Instituto Estadual de Patrimônio Artístico e Cultural (Inepac).
— Já perdemos muita coisa — disse Marcos Monteiro, diretor do Inepac. — Temos que preservar o que ainda nos resta, principalmente na Região dos Lagos, onde o patrimônio cultural sofre uma ameaça constante da especulação imobiliária. Se o poder público não tomar a frente, as futuras gerações não terão acesso ao que nos restou do passado.

Por tudo isso e por muito mais, Cabo Frio quer se transformar num importante pólo histórico e turístico do estado — e talvez do Brasil.
(031026) - por Alba Valéria Mendonça e Paulo Roberto Araujo para O Globo (RIO) de 26/10/2003

 


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