|
Açougue
e
laboratório
Affonso
Romano de
Sant´anna |
Em 1536 foi necessário que o Papa Paulo III editasse uma bula afirmando que os índios
descobertos na América tinham alma. O que teria isso a ver com essas notícias de que
clonaram uma outra ovelha lá na Escócia, desta vez com genes humanos? Primeiro voltemos
aos anos do Renascimento, quando o mundo era revirado de cabeça para baixo, como de
cabeça para baixo está sendo revirado nosso mundo nesta virada de milênioQuando os exploradores do Novo Mundo chegaram aqui
encontraram esses estranhos seres a que equivocadamente chamaram de "índios" e
que aos olhos europeus não passavam de "bugres". Com essa palavra queriam dizer
que os índios eram seres tão primitivos que sequer tinham alma. E já que não tinham
alma, então eram como qualquer animal, podia-se fazer com eles o que bem quisesse,
explorar seu corpo no trabalho ou matá-los, pois seu corpo era um invólucro de nada.
Mas surgiu logo um problema. Com os exploradores do pau-brasil, da cana-de-açucar e
depois do ouro e da prata e dos diamantes, vinham os padres, e os padres vinham
catequizar, zelar pelas almas para que elas se salvassem. Mas como zelar pela alma dos
índios, se eles não tinham alma? Aí é que surgiu a necessidade de um decreto, um
documento oficial da Igreja esclarecendo que índio também tem alma, para justificar a
catequese.
Lembrei-me disso a propósito daquela ovelha, lá
na Escócia, que está pertubando eticamente os que eticamente se deixam pertubar. Não é
bem ela que está nos pertubando, mas a ciência atual. Há quem diga que o problema é
que estão começando a misturar seres de espécies diferentes. Enquanto se procurava
aprimorar tulipas com cruzamentos de tulipas, tudo bem, mas na hora em que misturam ovelha
com gente pode complicar.
Aliás, complica mesmo. Vejam Cristo, foi a primeira ovelha humana a ser sacrificada.
Devo logo adiantar que não tenho resposta alguma para essas e outras questões. Apenas
registro, no meu sismógrafo particular, algumas perturbações na superfície de nossa
desalmada consciência.
Argumenta-se que com a criação em série dessa ovelha chamada Polly, prima da anterior,
Dolly, os animais serão transformados em armazéns, containeres, depósitos de órgãos,
que poderão ser transplantados para os humanos. A Polly vai produzir a alfa-antitripsina,
usada no combate à fibrose cística. Dito assim fica tudo asséptico, clínico, sem
remorsos. A ovelha deixa de ser ovelha e passa a ser uma máquina produtora de
alfa-antitripsina.
Lembro-se de um péssimo filme francês com Alain Delon, no qual imigrantes portugueses
desapareciam sistematicamente de uma clínica onde trabalhavam. Eram assassinados para
deles se tirar hormônio para rejuvenescer milionários. Acho que o filme tinha uma
intenção metafórica: a exploração dos pobres imigrantes pelos países ricos. Alguém
pode dizer: a vantagem da clonagem de ovelhas é que não será mais preciso sacrificar os
irmãos "portugueses" ou qualquer pessoa que hoje é sequestrada para que se lhe
tire um órgão vital logo contrabandeado.
Há muito venho sugerindo uma estátua aos animais que são sacrificados em nosso
benefício: estátuas para frangos, vacas, rãs, pássaros de plumagens variadas. Assim
como já homenageamos negros, índios, imigrantes, mulheres e qualquer soldado
desconhecido, cada cidade deveria ter uma estátua ao animal desconhecido. Até mais: em
cada casa um altar, pois muitos sacrificam animais domésticos.
Dificilmente eu poderia trabalhar naquele laboratório lá em Edimburgo. Ia me apegar a
Dolly e a Polly. Enamorar-me perdidamente. Como é que ia poder chegar um dia para uma
delas ou uma de suas similares e dizer: "Olha, você é muito bonitinha, mas estou
precisando do seu fígado; você é muito lindinha, mas seu coração vai ficar muito bem
numa viúva escocesa."
Pode ser que a ciência resolva esse problema brevemente e comece a produzir uma Polly2
com inúmeros corações, fígados e todo tipo de proteínas como se fosse uma usina
inesgotável. Aí, desalmadamente posso dizer: tudo bem, os animais virariam árvores, que
dariam órgãos a cada estação propícia. É possível que a gente em breve chegue lá.
Mas, até que isto ocorra, continuarei com problemas. Sei que tomates choram ao serem
cortados e que se lascarmos a folha de uma planta a sua aura muda de cor. São muito
sensíveis os seres vivos. Alguns mais que outros, claro. Já não lhes falei numa
crônica dessas do meu espanto no dia em que ouvi o escultor Strockinger dizer que as
pedras amadurecem?
Olho as duas cachorrinhas deitadas aos meus pés. Nós nos entendemos e nos amamos tanto.
Ah! esses olhinhos cor de mel. Quem é que disse que vocês são simples
"animais", uns "bugres"? Quando será que o Papa vai baixar um decreto
reconhecendo que vocês também têm alma?
Se dependesse de mim, portanto, aquele laboratório lá na Escócia estaria mal e a
farmacologia contemporânea pouco teria avançado. Mesmo porque suspeito que um dia vai se
generalizar a constatação de que os métodos medicinais convencionais, apesar de
salvarem a minha e a sua vida, são um atraso, uma barbárie e que há outras formas de
cura mais eficientes e menos sacrificais.
Mas até lá viveremos entre o açougue e a sala de cirurgia. |