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''A Índia é exemplo para o Brasil''
Ambientalista vê na tecnologia, no meio ambiente e na distribuição
de renda modelos para o país
O arquiteto e ambientalista Maurício Andrés conseguiu
uma bolsa do CNPq e, diferentemente de seus colegas, que carimbaram
o passaporte para os Estados Unidos ou França, optou pela Índia.
Sem hábitos de monge, é vegetariano e tem uma visão
não fragmentada da realidade, tão comum aos ocidentais.
Mergulhou na comparação entre uma aldeia indiana e um
município brasileiro e resume agora, num livro, o resultado
de 27 anos de trabalho. Discorda da imagem criada pelo economista
Edmar Bacha, a Belíndia, onde a Bélgica seria o melhor
dos mundos e a Índia, o pior.
- Temos uma concepção negativa sobre a Índia.
As informações nos chegam de segunda mão. Mas
há uma série de aspectos positivos que servem de referência
para um aprendizado mútuo.
Maurício põe foco no desenvolvimento sustentável,
que não degrada irreversivelmente a natureza e preocupa-se
com aspectos sociais, econômicos e culturais.
- A Índia tem uma história conturbada, de 5.000 anos,
mas sobre um fio condutor. O Brasil vive um momento de busca de alternativas
a este modelo insustentável da civilização ocidental
industrial, que não irá muito longe com os atuais padrões
de consumo inclusive de petróleo e outros bens esgotáveis.
Para o ambientalista, um dos exemplos a ser seguidos é o da
distribuição de renda.
- A agricultura familiar sempre foi muito forte na Índia. Nunca
houve escravos. Desenvolveram um sistema de assentamentos e agricultura
familiar que permite sustentar um bilhão de pessoas. A Índia
ficou independente em 1947 e, em quase 60 anos de independência,
conseguiu diminuir a desigualdade entre ricos e pobres. Nos últimos
40 anos, eles dobraram a participação na renda nacional.
Fruto de políticas públicas na zona rural, e nas cidades,
com emprego de tecnologia de ponta.
A antiga Bombaim, hoje Mombai, tem 11 milhões de habitantes.
Tanto quanto o Rio de Janeiro. Lá, a taxa anual de homicídios
é de 1,1 para cada 100 mil habitantes. No Rio, são 36,6
para cada 100 mil. Mas a Índia não é um país
de um bilhão de Gandis.
- O que explica isso é, em primeiro lugar, o modelo sócio-econômico
que reduziu desigualdades. Depois, há princípios milenares
de não violência. E há a lei do karma: se você
comete uma ação, vai pagar por aquilo nesta vida ou
nas próximas.
Ajuda a arraigar esta visão pacifista na sociedade a imensa
atividade cultural da Índia, seja no cinema - um dos mais produtivos
do mundo - como na TV ou nas histórias em quadrinho. O volume
é suficiente para sustentar identidade cultural própria.
- Não há a invasão de enlatados que se verifica
aqui.
A relação com as drogas ilícitas também
não tem parâmetros com o Brasil, a Europa ou os Estados
Unidos:
- Na nossa sociedade, a droga química propicia estados alterados
de consciência e outros níveis de percepção,
de prazer. Lá, com práticas de ioga, respiração,
meditação, as pessoas conseguem isso. O tráfico
internacional passa por lá, mas não se instala.
Com climas e vegetação semelhantes, Brasil e Índia
poderiam trocar experiência em setores de ponta. Falta, aqui,
consciência ecológica.
- No Brasil ainda são necessários choques, como o apagão,
dramatizam a situação e servem de alerta. O pensamento
ainda não se reflete em atitude.
A Índia já desenvolveu sua bomba atômica, pesquisa
espacial e indústria de softwares. Ao mesmo tempo, desenvolve
modelos mais eficientes de carros-de-boi.
- Há muitas iniciativas de aplicação da ciência
e tecnologia nas áreas rurais. Isso ajuda a promover socialmente
um bilhão de pessoas num espaço duas vezes e meia menor
que o Brasil. Eles investem no que exige pouco capital e é
intensivo no uso de mão de obra.
Embora já tenhamos as nossas, importadas de lá e aqui
desenvolvidas, as matrizes de gado gir, nelore e guzerá são
da Índia.
- Eles têm um rico banco de biodiversidade. Talvez tenhamos
mais. A diferença na relação com o gado é
que aqui é o animal morto que tem valor econômico. A
Índia o valoriza vivo, com o leite, a força no arado
e nos carros-de-boi, no esterco para adubar.
Maurício lembra que já há uma especialização,
a ecologia energética, que começa a se aprofundar no
cardápio.
- Se a espécie humana se alimentar menos de proteína
animal e mais de outros nutrientes, pode permitir que se alimentem
no planeta 10 bilhões de habitantes (hoje somos 6 bilhões).
Uma lição para um país que convive com 40 milhões
de famintos e, hoje, debate mudanças profundas. Maurício
lança amanhã, a partir das 19h, na Livraria da Travessa,
em Ipanema, Tesouros da Índia - Para a civilização
sustentável.
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