Pensamento Ecológico apresenta:
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Galeria dos talentos Alfred North Whitehead (1861-1947) Aristóteles Bernard Shaw Bertrand Russell Charles Darwin Euclides da Cunha Edmund Wilson Edmund Burke Edward Gibbon Francis Bacon Fiodor Dostoievski Gaetano Salvemini H.G.Wells Isaac Newton Jacob Buckhardt Karl Popper Leon Tolstoi Leon Trotsky Machado de Assis N.Sukhanov Platão Plutarco Santo Agostinho Simon Schama Sófocles Suetônio Theodore Momsem Thomas Mann Tucídides William Shakespeare
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Um guia para ter cultura Uma bibliografia básica para quem quer compreender a aventura da humanidade Por Paulo Francis Pedem minha ficha acadêmica para jovens vestibulandos...Não tenho. Tentei um mestrado na Universidade Columbia em Nova York 1954, mas desisti, aconselhado pelo professor-catedrático Eric Bentley. Achou que eu perdia o meu tempo. Li toda a literatura relevante, de Ésquilo a Beckett, e sabia praticamente de cor a Poética de Aristóteles. Em alguns meses se lê tudo que há de importante em teatro. Li e reli anos a fio. Mas, sem o doutorado ou nem sequer mestrado, me proponho fazer algumas indicações aos jovens, que, no meu tempo, seriam supérfluas, mas que, hoje, talvez tenham o sabor de novidade. Falo de se obter cultura geral. É fácil. Educação era a transmissão de um acúmulo de conhecimentos. Hoje, é uma adulação da juventude, que supostamente deve fazer o que bem entende, estar na sua, como dizem, e o resultado é que os reitores de universidades sugerem que não haja mais nota mínima de admissão, que se deixe entrar quem tiver nota menos baixa. Deve haver exceções, caso contrário o mundo civilizado acabaria, mas a crise é real, denunciada por gente como o príncipe Charles, herdeiro do trono inglês, e por intelectuais como Alan Bloom, que consideram a universidade perdida nos EUA. No Brasil, houve a Reforma Passarinho nos anos 60. A ditadura militar tinha o mesmo vício da esquerda. Queria ser popular. Era populista. Quis facilitar o acesso universitário ao povo, como resa o catecismo populista. Ameaça generalizar o analfabetismo. Não há alternativa à leitura. Me proponho apontar alguns livros essenciais ao jovem, um programa mínimo mesmo, mas que, se cumprido, aumentará dramaticamente a compreensão do estudante do mundo em que está vivendo. Começando pelo Brasil, é
indispensável a leitura de Os Sertões, de
Euclides da Cunha. É curto e não é modelo de estilo. Euclides escreve como Jânio
Quadros fala. É cara do far-te-ei, a forma oblíqua de que Jânio se gaba. Mas o livro é
de gênio. Nos dá a realidade do sertão, que é, para efeitos práticos, o Brasil quase
todo, tirando o Sul; a realidade do sertanejo, e do nosso atraso como civilização, como
cultura, como organização do Estado. Euclides mostra o choque central entre o Brasil que
descende da Europa e o Brasil tropicalista, nativo, selvagem. Euclides apresenta
argumentos hoje superados sobre a superioridade da Europa, mas nem por isso deixa de estar
certo. Tudo bem ter simpatia pelo índio e o sertanejo, o matuto, mas nosso destino é
ser, à brasileira, à nossa moda, um país moderno nos moldes da civilização européia.
Euclides começou o livro para destruir Antônio Conselheiro e a Revolta de Canudos, mas
se deixou emocionar pela coragem e persistência dos revoltosos e terminou escrevendo um
grande épico, em prosa, que o poeta americano Robert Lowell, que só leu a tradução,
considera superior a Guerra e Paz, de
Tolstoi. Leia algum dos grandes romances de Machado de Assis. O mais brilhante é Memórias Póstumas de Brás Cubas. Para estilo, é o que se deve emular. O coloquialismo melodioso e fluente de Machado. É um grande divertimento esse livro. Eu recomendaria ainda para os que tem dificuldade de manejar a lingua O Memorial de Aires. É o livro mais bem escrito em português que há. Os gregos são um dos nossos
berços. Representam a luz e a doçura, na frase de um educador inglês, Mathew Arnold
(também poeta e crítico). Arnold falava contra a tradição judaico-cristã, dominante
na nossa cultura, na nossa vida, a da Bíblia
e do Novo Testamento, que predominaram no
mundo ocidental desde o século 5 da Era Cristã, quando o imperador romano Constantino se
converteu ao cristianismo. Estudos gregos sérios só começaram no século 19, quando se
tornaram currículo universitário, porque antes os padres e pastores não deixavam. Imprescindível também ler As Vidas, de Plutarco, o grande biógrafo da Antiguidade. Ficamos sabendo como eram os grandes nomes em carne e osso, de Alexandre, paranóico, a Júlio Cesar, contido, a Antônio e Cleópatra. Shakespeare baseou grande parte de suas peças em Plutarco e leu em tradução inglesa, porque Shakespeare, como nós, não sabia latim ou grego. E, finalmente, como história, leia A Guerra do Peloponeso, de Tucídides. É sobre a guerra entre Atenas, Esparta, Corinto e outras, durante 27 anos, no século 5 antes de Cristo. Lendo sobre Péricles, o líder ateniense, Cléon, o führer espartano, e Alcebíades, o belo, jovem e traiçoeiro Alcebiades, nunca mais nos surpreenderemos com qualquer ato de político em nossos dias. É o maior livro de história já escrito. Sempre atual. Da Roma original basta ler Os Doze Césares, de Suetônio, e Declínio e Queda do Império Romano, de Gibbon. Mais um banho de natureza humana. Meu conhecimento científico é quase nenhum. Mas lí, claro, a Lógica da Pesquisa Científica, de Karl Popper, quando entendi o que esses cabras querem. Para quem quer um começo apenas, recomendo o prefácio do Novum Organum, de Francis Bacon, que quer dizer, o título, novo instrumento, e Bacon explica o método científico e o que objetiva a ciência. E para complementá-lo leia o prefácio dos Os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, de Isaac Newton, e o prefácio de Bertrand Russell e Alfred North Whitehead de seus Principios da Matemática. Também vale a pena ler a História da Filosofia Ocidental, de Bertrand Russell, e o capítulo sobre Positivismo Lógico, que é a filosofia calcada no conhecimento científico. Em resumo, tudo que pode ser provado lógica e matematicamente, é filosofia.O resto não é. Acho isso perfeitamente aceitável. Dispenso o resto. É nas artes que está a
sabedoria. Como viver bem sem ler Hamlet, de
Shakespeare? Está tudo lá em linguagem incomparável, é de uma clareza exemplar, tudo
que nós já sentimos, viremos a sentir, ou possamos sentir. A melhor história de Roma é a
de Theodore Mommsem. A melhor história da Renascença é a de Jacob Buckhardt. Tudo que
você precisa saber. Passo tranquilo pelo Iluminismo. Foi tão incorporado a nossa vida, que não é necessário ler Voltaire ou Diderot. Os livros de Peter Gay sobre o Iluminismo são excelentes. Dizem tudo que se precisa saber. Se se quer saber mesmo o que foi o cristianismo, a obra insuperada e As Confissões de Santo Agostinho, uma das grandes autobiografias, à parte a questão religiosa. Não é preciso ler A Origem das Espécies, de Darwin, mas é um prazer ler Viagens de um Naturalista ao redor do Mundo, as aventuras de Darwin como botânico e zoólogo, a bordo do navio inglês Beagle, nos anos 1830, pela América do Sul, com páginas inesquecíveis sobre Argentina, Brasil e Galápagos, que está até hoje como Darwin encontrou (e o Brasil e Argentina, na sua alma?) Houve três grandes revoluções no mundo, a
americana, a francesa e a russa. A literatura não poderia ser mais copiosa. Mas basta
ler, por exemplo, Cidadãos, de Simon
Schama, para se ter um relato esplêndido da revolução interrompida, 1789-1794, na
França, e concluir com o livro de Edmund Wilson, Rumo à
Estação Finlândia. Schama é conservador, Wilson não era, quando
escreveu, fazia fé, ainda na década de 30, como tanta gente, na Revolução Russa. Mas a
esta altura, e mesmo antes de ele morrer, em 1972, é fácil notar que a Revolução Russa
não teve o Terror interrompido, como a Francesa, mas continuou até Gorbachev revelar o
seu imenso fracasso. Em economia, a Abril publicou 50 volumes dos principais economistas. Eu não perderia tempo. Têm tanta relação com a nossa vida como tiveram Zélia e a criançada assessora. Mas há o Dicionário de Economia, também da Abril. Quando tascarem o jargão, você consulta para saber, ao menos, o que significa a embromação. Economia se resume na frase do português: quem não tem competência não se estabelece. Dos romances do século 19, Guerra e Paz, de Tolstoi, e Crime e Castigo, de Dostoiewski, me parecem absolutamente indispensáveis. Guerra e Paz porque é o retrato completo de uma sociedade como uma grande familia, porque rimos e choramos sem parar, porque contém um mundo e as inquietações do protagonista, Pierre Bezhukov, que até hoje não foram respondidas. Crime e Castigo, porque exemplifica toda a filosofia de Nietzsche de uma maneira acessível e profundamente dramática, de como o cérebro humano é capaz de racionalizar qualquer crime, que tudo é relativo, em suma, a pessoa que pensa e age, como Raskolnikoff, o protagonista. Vale tudo. Dostoiewski, para nos impedir de aniquilar uns aos outros, acrescenta que não se pode viver sem piedade. Dos modernos, Proust é maravilhoso, mas penoso, Joyce é desnecessário, mas vale a pena ler as obras-primas de Thomas Mann, A Montanha Mágica, para saber o que foi discutido filosoficamente neste século, e Dr Fausto, que leva o relativismo niilista que domina a cultura moderna e de que precisamos nos livrar, se vamos sobreviver culturalmente, como civilização, e não como meros consumidores, num nível abjeto de satisfação animal. Há muitas obras que me encantaram e não estou, de forma alguma, excluindo autores ou quaisquer livros. A lista que fiz me parece o básico. Em algumas semanas, duas horas por dia, se lê tudo. Duvido que se ensine qualquer coisa de semelhante nas nossas universidades. Se eu estiver enganado, dou com muito prazer a mão à palmatória. Por Paulo Francis, para o jornal - OESP - 30/05/91 Onde encontrar os livros sugeridos Alguns dos livros recomendados são encontrados
apenas em bibliotecas. Outros, podem ser achados, ou encomendados, nas livrarias.
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