Piaget (1896 - 1980), vida e obra
  Compilado por Carlos Alberto DOBBIN  (Cabo Frio, nov/2000)
 

Filho mais velho de Arthur Piaget, professor de literatura medieval, e de Rebeca Jackson, JEAN PIAGET nasceu em Neuchâtel, Suíça, a 9 de agosto de 1986.

Desde muito cedo, interessou-se pelas ciências. Ainda com 10 anos foi convidado para trabalhar no Museu de História Natural de sua cidade, onde etiquetava coleções de conchas. Com 11 anos, ainda aluno da Escola de Primeiro Grau de Latim em Neuchâtel, escreveu uma pequena notícia sobre um pardal totalmente albino que observara num parque público. Este pequeno "paper" é considerado seu primeiro trabalho científico, o início de sua brilhante carreira científica de quase 70 livros e 230 artigos (sua obra tem mais páginas que a Enciclopédia Britânica).

Pouco depois, ofereceu-se como voluntário para trabalhar como assistente do diretor do Museu de Ciências Naturais de Neuchâtel. Seu interesse por moluscos aparece durante a adolescência quando publicou diversos artigos sobre moluscos, fósseis e zoologia, temas presentes nos estudos que desenvolveu durante toda a sua vida . Tal era sua paixão por este estudo que, naquela ocasião, decidiu que seria um Malacologista.

Seu interesse, entretanto, não se limitava aos moluscos, estendendo-se ao campo da religião, da biologia, da sociologia e da filosofia; adolescente ainda, por intermédio do padrinho, Samuel Cornut, travou seu primeiro contato com a obra de Henri Bergson (1859-1941), notadamente o estudo “A Evolução Criadora” que muito o influenciou, pois lhe possibilitou novo norte em sua formação teórica, buscando conciliar as disposições especulativas com a sua formação científica.

Após o colegial estudou ciências naturais na Universidade de Neuchâtel onde obteve o grau de Ph.D. Entre 1913 e 1915, estudou os trabalhos de Max Wertheimer e Wolfgang Kohler, ambos da escola gestaltista de Berlim e escreveu "Esboço de um neopragmatismo". Durante esse período publicou dois ensaios filosóficos que ele considerou trabalho de adolescente, porém importante para a orientação geral do seu pensamento.

Os estudos de biologia fizeram-nos suspeitar de que os processos de conhecimento poderiam depender dos mecanismos de equilíbrio orgânico. Piaget convenceu-se de que tanto as ações externas quanto os processos de pensamento admitem uma organização lógica. Elaborou, então, um ensaio sobre o equilíbrio do todo e suas partes, sem entretanto conhecer a teoria Gestalt, que se ocupava do mesmo problema e já havia alcançado celebridade na Alemanha.

Na Universidade de Zurique (Suíça) estudou psicologia durante um semestre nos laboratórios de G. E. Lipps e Wreschner e na clínica psiquiátrica de Bleuler (1857-1939), o que o fez formar a convicção de que psicologia experimental poderia ser útil bastante para sua vocação de epistemólogo.

Após um semestre na Universidade de Zurique, Piaget inicia seu interesse pela psicanálise trocando a Suíça pela França.

Em 1923 casa-se com Valentine Châtenay com quem teve três filhos, Jacqueline, Lucienne e Laurent, cujo desenvolvimento, desde o nascimento, foi motivo de estudo de Piaget.

Passa um ano em Paris onde estuda filosofia com André Lalande (1867-1936) e trabalha com a escola para meninos da Rua "Grange-Aux-Belles", instituição criada por Alfred Binet (1875-1911) e dirigida por De Simon que, juntos desenvolveram testes para medir a inteligência. Eles estandartizaram o "Burt's test" que foi o primeiro estudo experimental do desenvolvimento do cérebro. Durante este período Piaget pesquisou o raciocínio verbal de crianças normais e deficientes.

Lalande interessou-se por seus estudos, cujos resultados foram publicados numa série de quatro artigos, entre 1922 e 1922. Nessa época, Piaget convenceu-se de que o caminho para a conciliar a filosofia e psicologia deveria ser buscado na experimentação. Um de seus trabalhos desse período foi publicado nos Arquivos de Psicologia de Genebra, o que levou Claparède (1873-1940), seu editor, impressionado pela originalidade do escrito, propor seu ingresso no Instituto Jean Jacques Rosseuau de Genebra em 1921, onde Piaget encontrou tempo e liberdade suficientes para desenvolver seus estudos, que consistiu na investigação da psicologia infantil e elaboração dos planos de pesquisas sobre o pensamento de onde construiu sua epistemologia. sobre a criança, uma série de trabalhos que deram fama mundial.

Em 1925, Piaget foi nomeado titular de Filosofia em Neuchâtel, onde lecionou até 1929, dando também aulas de psicologia e sociologia, sem deixar a investigação experimental sobre lógica e ontologia infantis, no laboratório de Genebra. Além disso, continuou seus trabalhos com moluscos, publicando importantes artigos sobre o assunto.

Em 1929, voltou a ocupar um cargo de dedicação exclusiva na Universidade de Genebra, primeiro como Diretor Assistente e depois como co diretor do Instituto Jean Jacques Rousseau. De 1929 a 1939, além de desempenhar funções administrativas, Piaget foi o professor de história do pensamento científico, intensificando seus estudos sobre história das matemáticas, da física e da biologia e redigindo seus primeiros trabalhos sobre epistemologia genética. Também foi nomeado, em 1929, diretor do Departamento Internacional de Educação, cargo que lhe deu oportunidade de tentar introduzir suas descobertas sobre o desenvolvimento das crianças nas práticas educativas. Com esse fim, nas décadas posteriores, Piaget e seus colaboradores escreveram inúmeros livros.

Em 1936, a Universidade de Haward concedeu-lhe o título de Doutor Honoris Causa.

Durante o período da guerra, desenvolveu suas idéias sobre as estruturas lógicas relativas à física elementar. De 1939 a 1952, foi professor de sociologia da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Genebra. Em 1940, tornou-se diretor do Laboratório de Psicologia Experimental dessa Universidade, como sucessor de Claparède, e continuou também como editor dos Arquivos de Psicologia junto com André Rey e Lambercier. Foi também eleito presidente da Sociedade Suíça de Psicologia e co diretor da Revista Suíça de Psicologia. Após a guerra, a Universidade de Paris designou-o para suceder Merleau Ponty (1908-1961). Em 1950, além de diversos livros sobre psicologia e psicologia da criança, sozinho ou com colaboradores, Piaget já havia publicado a Introdução à Epistemologia Genética em três volumes e o Tratado de Lógica.

Seu projeto de elaborar uma epistemologia baseada nas ciências positivas concretizou-se em 1955 quando foi fundado, em Genebra, um centro de altos estudos - Centro Internacional de Epistemologia Genética - sob os auspícios da Fundação Rockfeller.

Neste Centro reúnem-se pesquisadores de todo o mundo que tratam dos mais diversos assuntos, desde fatos aparentemente simples, como as primeiras palavras pronunciadas pelos bebês, até os complicados problemas teóricos de cibernética. Trata-se de uma instituição dedicada a assuntos interdisciplinares, estudando inclusive a teoria da informação, a formação dos raciocínios recorrenciais, a teoria das ligações analíticas e sintéticas, a epistemologia do tempo e do espaço, a aprendizagem das estruturas lógicas e a teoria das probabilidades.

Tão ampla variedade de assuntos, no entanto, não dá como resultado uma simples somatória de investigações. Pelo contrário. Existe um denominador comum que unifica todas as contribuições em torno de uma disciplina só: Epistemologia Genética, criada por Jean Piaget.

Piaget definiu a si mesmo como um “antigo futuro filósofo” que se transformou em psicólogo e investigador da gênese do conhecimento. Essa definição e as razões da transformação são apresentadas por ele no livro Sabedoria e Ilusões da Filosofia, publicado em 1965. Nesse livro, Piaget desenvolve a tese de que a filosofia é uma sabedoria indispensável aos seres racionais, mas que não atinge um saber propriamente dito, provido das garantias e dos métodos de controle, característicos do que se denomina “conhecimento”.

As razões dessa ausência de controle poderiam ser encontradas no divórcio entre as ciências e a filosofia, cujas ligações caracterizaram os grandes sistemas do passado.

Não é desprovido de senso, diz Piaget, “pensar que foi a orientação biológica de Aristóteles e a orientação matemática de Platão que justificaram diferenças essenciais em seus sistemas”. Assim, o pensamento cartesiano não pode ser compreendido sem a matemática, e o criticismo kantiano, sem a física newtoniana.

Entretanto, na filosofia dos séculos 19 e 20, essas ligações foram rompidas pela maioria dos filósofos, surgindo os conflitos que retardaram o desenvolvimento das disciplinas que pretendem ser científicas.

Piaget encontra, sob o complexo conjunto de fatores que intervêm nesses conflitos, uma fundamental orientação que passa defender: a que separa a verificação da especulação”.

Por essas razões, Piaget diz que se “desconverteu”, transformando de um “antigo futuro filósofo” em psicólogo e, sobretudo, em investigador das estruturas e da gênese do conhecimento. Em Lógica do Conhecimento Científico (1966), o próprio Piaget, de maneira ampla, define a epistemologia genética como o “estudo da passagem dos estados inferiores do conhecimento aos estados mais complexos ou rigorosos”. Em outras palavras, Piaget propõe o retorno às fontes e à gênese propriamente dita do conhecimento, do qual a epistemologia tradicional conhecia apenas os estados superiores, isto é, certas resultantes finais de um complexo processo de formação.

A epistemologia genética criada por Piaget não é assim, uma disciplina filosófica, como a epistemologia tradicional. Em primeiro lugar, porque se afasta de toda especulação, estudando a gênese das estruturaras e dos conceitos científicos, tal como de fato se constituíram em cada uma das ciências; em segundo lugar, porque procura desvendar, através da experimentação os processos fundamentais de formação do conhecimento. A epistemologia genética também não é uma ciência entre outras, mas uma matéria interdisciplinar que se ocupa com todas as ciências.

Essa unificação realizada por Piaget e, sobretudo, esse processo de gênese dos conhecimentos - que vai da simples constatação de fatos concretos até as mais altas abstrações - até certo ponto identificou-se com sua própria vida. Numa palavra, seu trabalho com epistemologia genética e psicologia tinha um único objetivo: como medir o desenvolvimento da inteligência.

Ele escreveu que o desenvolvimento da inteligência se faz de forma gradual e, que as estruturas do pensamento devem estar preparadas para a assimilação do conhecimento (Gênese das Estruturas) além de sempre dizer que "a criança não é um adulto em miniatura".

Seu trabalho inspirou diversos campos do conhecimento como a Psicologia, Sociologia, Educação, Epistemologia, Economia, Direito, Comunicação etc. Conforme diz o Professor Lauro de Oliveira Lima (autor de mais de 15 obras sobre educação, baseada nos estudos piagetianos), a Epistemologia Genética de Piaget é o próprio fundamento do conhecimento.

Piaget recebeu inúmeras graduações honoráveis e prêmios em todo mundo, destacando o prêmio Roterdam, que é o Nobel das Ciências Humanas. No Brasil o título de doutor "honoris causa" pela Universidade do Rio de Janeiro -UFRJ em 1949.

Como diz o Professor Lauro de Oliveira Lima, “ou examinamos as propostas de Piaget ou caímos nas facilidades da contra cultura e da anti ciência - o despertar dos mágicos. (...) Se os homens inventivos são incômodos para a mediocridade, são contudo, os únicos que ficam na memória da humanidade”.

Numa palavra, para Piaget o comportamento dos seres vivos não inato, nem é o resultado de condicionamentos. É construído numa interação (num ir e vir) entre o organismo e o meio. Quanto mais complexa é esta interação, mais INTELIGENTE é o animal (é o caso do homem).

Piaget morreu a 16 de setembro de 1980 em Genebra, Suíça.

Se, conforme o Aurélio, a ecologia é a parte da biologia que estuda as relações ente os seres vivos e o meio ou ambiente em que vivem, bem como as suas recíprocas influências, Piaget, dentre os tantos bilhões de espíritos humanos que passaram ou passam - e talvez dentre os tantos que ainda irão passar - pela Terra, é certamente quem nos ofertou a maior contribuição para o pensamento ecológico.

Obrigado Piaget!

 

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